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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Astronomia versus astrologia

Artigo explica por que o movimento dos astros é incapaz de influenciar nosso comportamento e dia-a-dia

Há alguma evidência científica de que os astros podem revelar aspectos ocultos de nossa personalidade ou influenciar nosso comportamento, cotidiano e destino? A astrologia pode ser considerada uma ciência, no sentido moderno dessa palavra? É possível testar, sob condições controladas, as previsões feitas por horóscopos e mapas astrais? Se sim, o que dizem os resultados desses experimentos? Essas são algumas das perguntas que um astrônomo se propõe a responder neste artigo, que dá início à série ‘Ano Internacional da Astronomia’, que ocupará as páginas de Ciência Hoje ao longo de 2009.

Doze ‘filósofos pagãos’ e suas conjunções interplanetárias, ilustração de um antigo manuscrito sobre astrologia.

O ato de olhar o céu e buscar simbolismos e associações é algo intrínseco ao ser humano e ocorre há milênios. Essa busca vem do tempo em que pouco se conhecia sobre o comportamento da natureza e no qual o animismo era uma tentativa de compreender e domesticar o desconhecido. Muitas culturas antigas têm registros sistemáticos da esfera celeste que remontam a 2 mil anos antes da era cristã. Desde essa época, padrões de repetição de movimento e agrupamento de astros já eram conhecidos, levando à separação entre estrelas e planetas (‘astros errantes’) – na época, eram conhecidos apenas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

A ideia de constelações também surgiu naturalmente, sendo que a idealização do que era ‘visto’ no agrupamento de estrelas sempre sofreu uma forte influência da mitologia local. Porém, ainda hoje, um fato acontece com vários de nós, astrônomos profissionais ou amadores: basta comentar sobre nossa profissão ou interesse pelos céus e rapidamente vem a pergunta: “E se eu te disser que sou Sagitário com ascendente em Touro”? É surpreendente que, mesmo neste início de século, um número enorme de pessoas ainda leva a sério uma crença que remonta a mais de dois milênios: a de que os astros influenciam o cotidiano, o comportamento e o destino das pessoas.

Sem status científico
Astronomia e astrologia são palavras derivadas do grego. Nessa língua, astron significa ‘estrela’ e o sufixonomos (escrito, em português, como ‘nomia’), ‘regra’ ou ‘lei’. A astronomia é a ciência que trata da constituição, posição relativa, movimento e, mais recentemente, dos processos físicos que ocorrem nos astros (neste último caso, sendo denominada astrofísica, cujo nascimento se deu no século 19). Por sua vez, a astrologia aglutina astron e logos (em português, ‘logia’), que significa ‘palavra’ e que pode ser entendido como ‘estudo’ ou ‘disciplina’.

De forma geral, a astrologia trata do estudo da influência dos astros, especialmente dos signos do zodíaco, no destino e no comportamento humano. Os fundamentos da astrologia foram estabelecidos pelos babilônios, por volta de 1500 a.C. A origem comum da astronomia e da astrologia remonta a essa época e, apesar de ambas se basearem no estudo dos astros, suas versões modernas são inteiramente distintas.

A astrologia baseia suas previsões no movimento relativo dos planetas do Sistema Solar, não fazendo uso da informação trazida pela radiação eletromagnética (ondas de rádio, infravermelho, luz visível, raios X etc.) emitida por eles. Praticantes e estudiosos da astrologia consideram-na uma linguagem simbólica, forma de arte, adivinhação ou até ciência, com capacidade de prever o futuro ou aspectos ocultos da personalidade. Os astrólogos defendem sua área de estudo com base na ideia de que a ciência moderna não entende o que eles dizem e que, mesmo sob teste, a astrologia será sempre avaliada segundo os paradigmas científicos, desconsiderando outras formas de testes e de pensamento.

Nossa ênfase neste artigo será a astrologia sob o ponto de vista da ciência, mas vamos aqui, ainda que brevemente, explicar as características básicas da astronomia. Esta é baseada em leis conhecidas da física, sendo que os resultados obtidos com base nessas leis deverão ser os mesmos para qualquer pessoa que conheça os métodos empregados no experimento, bem como as leis em questão. O estudo de astros distantes também é feito com base na radiação eletromagnética emitida por esses corpos celestes, incluindo ondas de rádio, micro-ondas, ultravioleta, raios X e raios gama. Isso permite não só a reconstrução dos processos físicos que produzem essa radiação, mas também o estudo da estrutura e do estado evolutivo do astro.

Críticos da astrologia – incluindo a própria comunidade científica –, consideram-na uma forma de pseudociência ou superstição, devido à sua incapacidade de demonstrar o que afirma, o que até agora tem sido corroborado em grande número de estudos científicos controlados. Por sua vez, astrólogos contestam testes propostos pela ciência para validar a astrologia nesse sentido. E, quando não se recusam a participar deles, rejeitam seus resultados, apesar de estes serem baseados em testes estatísticos e em leis da natureza amplamente validadas.

Portanto, como a astrologia não se enquadra no paradigma do que é entendido como ciência, ela perde o direito de reivindicar esse status quando lhe é conveniente.

Carlos Alexandre Wuensche
Coordenação de Ciências Espaciais e Atmosféricas,
Divisão de Astrofísica, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais   

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um primata nada especial

Estudo brasileiro refuta mito de que humanos têm cérebro maior do que o esperado para a espécie

A imagem mostra cérebros de primatas: de cima para baixo, galago, sagui, macaco-da-noite, macaco-de-cheiro, macaco reso e homem. O tamanho do cérebro humano coincide com o de um primata de seu porte (foto: Suzana Herculano-Houzel).

Um estudo brasileiro acaba de contestar uma ideia largamente aceita desde o século 19: a de que a maior capacidade cognitiva do ser humano se deve a seu cérebro relativamente avantajado. Os resultados mostram que o tamanho e o número de neurônios do cérebro humano são compatíveis com os de um primata de nosso porte – nem maiores, nem menores do que o esperado.
Os pesquisadores, liderados pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descobriram que o cérebro humano tem 86 bilhões de neurônios – e não 100 bilhões, como se acreditava anteriormente.

O novo número de neurônios do cérebro humano – calculado oficialmente pela primeira vez – permanece maior do que o de nossos parentes evolutivos, mas é bem próximo do previsto para um cérebro primata do tamanho do nosso, com cerca de 1,5 kg.
Além disso, o estudo mostrou que a quantidade de células gliais (responsáveis pelo suporte e nutrição dos neurônios e pela manutenção das sinapses) no cérebro é quase a mesma dos neurônios – 84 bilhões. A conclusão derruba outro mito amplamente consolidado: o de que haveria no cérebro humano dez células gliais para cada neurônio.
O cálculo do número total de neurônios no cérebro só foi possível graças a um método – chamado de fracionador isotrópico – desenvolvido no Laboratório de Neuroanatomia Comparada da UFRJ. Até então, era difícil estimar com grande precisão a quantidade dessas células, pois a contagem era feita com base em amostras do cérebro, que tem uma distribuição de neurônios muito heterogênea.

O novo método supera esse obstáculo, pois o cérebro é transformado em uma mistura homogênea. Primeiro, o órgão é picado em pedaços e amassado em detergente até que todas as suas células se desfaçam e seus núcleos sejam liberados e fiquem em suspensão. Em seguida, a mistura é agitada até ficar homogênea.

Uma amostra dessa “sopa” é então colhida e analisada ao microscópio para que o número de núcleos presentes seja contabilizado. Os núcleos de neurônios são marcados com corante para serem identificados. A partir da quantidade de neurônios existente na amostra, os pesquisadores conseguem estimar o número dessas células em todo o cérebro.

Nem maior, nem menor
Os resultados, que serão publicados em breve no Journal of Comparative Neurology, são compatíveis com as regras que orientam o processo de formação do cérebro de primatas. Em estudo anterior, feito em parceria com pesquisadores da Universidade de Vanderbilt (Estados Unidos), a equipe mostrou que o cérebro de primatas cresce linearmente à medida que ganha neurônios, uma vez que o tamanho médio dessas células nervosas não se altera.

Com base nessas regras, os pesquisadores concluíram que um primata com 86 bilhões de neurônios deveria ter o cérebro exatamente do tamanho do nosso, com 1,5 kg. Isso significa que “o cérebro humano é apenas um cérebro grande de primata”, como conclui Herculano-Houzel em seu blog, no qual apresentou recentemente os resultados de sua pesquisa.

A ideia amplamente aceita de que o cérebro humano seria maior do que o esperado baseia-se na estrutura física de gorilas, orangotangos e chimpanzés. Esses animais têm o corpo maior do que o nosso, mas seus cérebros são bem menores.
Os pesquisadores brasileiros propõem agora uma hipótese alternativa: todos os primatas – incluindo os humanos – têm cérebros formados do mesmo modo. A diferença é que os corpos de orangotangos, gorilas e chimpanzés cresceram exageradamente em relação ao cérebro que possuem. “Nosso cérebro é feito à semelhança do cérebro dos demais primatas – apenas maior”, enfatiza Herculano-Houzel. 

Thaís Fernandes

Ciência Hoje On-line
19/02/2009

domingo, 8 de novembro de 2009

A energia em nossas vidas

Colunista explica como essa grandeza física surge e adquire diversas formas no universo

A energia elétrica, que chega às nossas casas através de torres de transmissão, é apenas uma das muitas formas que essa grandeza física pode assumir no universo (foto: SXC.hu).

Existem certas palavras que empregamos cotidianamente e nem sempre sabemos qual é a sua origem ou o seu verdadeiro significado. Na época do carnaval, aparecem nas chamadas e reportagens veiculadas na televisão e no rádio frases como “a energia da escola de samba vai contagiar toda a avenida” ou “nessa festa não vai faltar energia para a galera”, entre outras. Chamo a atenção para a palavra “energia”. Nesse contexto, ela é utilizada como sinônimo de alegria, disposição, vigor, veemência ou vontade. Ter energia é participar com intensidade dessa festa popular.

O período do horário de verão – que se inicia em plena primavera – terminou no último dia 14 de fevereiro e teve como objetivo diminuir o consumo de energia, principalmente no horário de pico (das 18h às 20h). Durante o tempo em que vigora, esse tipo de medida normalmente gera uma economia equivalente ao desligamento de uma cidade de médio porte, embora pouco percebida no valor da nossa conta de energia elétrica, que é cobrada em kWh (quilowatt-hora).

Por outro lado, encontramos nas embalagens de alimentos o valor energético do produto em calorias ou joules. Muitos ficam preocupados com esses valores. Normalmente os alimentos mais energéticos costumam ser os mais desejados. Ninguém resiste a pudim que tem milhares de calorias. E se não gastamos toda a energia que ingerimos dos alimentos, ela fica armazenada geralmente na região do abdômen na forma de gordura.
Energia, em seu sentido estrito, é um termo muito comum ao nosso vocabulário e é empregado com muitos adjetivos: energia elétrica, energia nuclear, energia química, energia solar, entre outros. Mas talvez ele seja pouco compreendido pela maioria das pessoas. Afinal, sabemos realmente o que é energia?

Conceito científico central
O conceito de energia é um dos mais centrais das ciências naturais. Ele é empregado em praticamente todas as áreas, como a física, a química e a biologia. Em particular, os modelos e teorias da física são alicerçados nesse conceito. Contudo, o termo energia é relativamente recente no contexto em que ele é empregado nas teorias físicas, tendo aparecido apenas em meados do século 19.

O nosso universo é composto de dois elementos principais: matéria e energia. O primeiro é fácil de conceituar (pelo menos à primeira vista), pois a matéria é tangível e visível ao nosso olhar. Podemos tocá-la, senti-la e observá-la diretamente. Já a energia é algo abstrato, que somente percebemos quando está em um processo de transformação.

Embora esteja localizado a cerca de 150 milhões de quilômetros da Terra, o Sol é nossa principal fonte de energia (imagem: Nasa).

Ao utilizarmos um automóvel, por exemplo, a energia acumulada nas ligações químicas das moléculas que compõem o combustível é liberada devido a uma explosão que ocorre no interior do motor. Durante esse processo, parte dessa energia fará com que o automóvel se movimente, mas outra parte será transformada em calor e liberada para o meio ambiente.

A energia que absorvemos dos alimentos tem origem no Sol. Embora esteja a cerca de 150 milhões de quilômetros de distância, o astro-rei continua sendo a principal fonte energética de nosso planeta. Essa energia, que chega à Terra na forma de ondas eletromagnéticas, surge devido aos processos de fusão nuclear que ocorrem no interior do Sol.

Basicamente, o processo envolve quatro núcleos de átomos de hidrogênio que, após diversas reações de fusão nuclear, se transformam em um núcleo de hélio. Esse processo gera um saldo energético, que surge da transformação da matéria em energia, como postula a mais famosa equação da física, proposta por Albert Einstein (1879-1955): E=mc 2 , na qual E é a energia, m a massa e c a velocidade da luz.

Ao chegar aqui na Terra, a luz do Sol é utilizada pelas plantas no processo de fotossíntese e armazenada nas ligações químicas das moléculas resultantes, que posteriormente iremos ingerir ao nos alimentarmos.

Energia em transformação
Nos exemplos citados acima, podemos perceber também uma das características mais importantes da energia: o fato de ela se conservar, ou seja, durante os processos, ela pode adquirir diversas formas, mas a sua quantidade total ainda permanece constante.
Infelizmente, outra característica da transformação da energia é que nem sempre ela se transforma em outro tipo de energia útil. É o que acontece com o calor gerado na combustão, que se dissipa no motor do carro, ou o produzido pelo nosso próprio organismo, que é simplesmente liberado para o meio externo. Essa energia com “baixa qualidade” aumenta outra grandeza física importante, que denominamos entropia (conceito já abordado em coluna anterior).

A energia do Sol é usada pelas plantas no processo de fotossíntese e depois é absorvida pelo nosso corpo quando nos alimentamos (foto: SXC.hu).

A energia, enquanto grandeza física, é mensurável. Contudo, não podemos medi-la de maneira absoluta, apenas relativa. Sempre estamos medindo a sua variação. O valor que recebemos na conta de energia elétrica, por exemplo, expressa a potência (em watts) gasta durante certo intervalo de tempo (hora). A potência é definida como a taxa de transformação da energia por unidade de tempo. Por sua vez, a unidade de energia definida como padrão é o joule. O termo calorias, muito comum para quantificar a energia de alimentos e para formular dietas, equivale a 4,184 joules.

Podemos compreender a energia como algo que pode modificar a matéria e transformá-la nas mais diversas formas. Essas transformações ocorrem devido à ação das interações fundamentais da natureza, como a força gravitacional (que nos mantém presos sobre a superfície da Terra e faz com que as galáxias se movam através do espaço), a força eletromagnética (responsável pelas interações entre os átomos e moléculas, bem como pela existência da luz), a força nuclear forte (que confere estabilidade ao núcleo atômico) e a força nuclear fraca (que controla processos de decaimento radioativo).

Todos os processos conhecidos são controlados por essas forças, que levam a energia neles armazenada a se transformar. No caso da fusão nuclear no interior do Sol, é a força nuclear forte que atua. Já o processo de fotossíntese é conduzido pela força eletromagnética.

Diante da variedade de formas que a energia pode assumir, podemos chegar a uma simples conclusão sobre sua definição. Embora esse termo que tanto utilizamos tenha diferentes significados, em sua essência ele indica sempre a mesma coisa: um processo de transformação.

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos
20/02/2009

sábado, 7 de novembro de 2009

O cientista criativo

Coletânea de textos sobre a vida e o legado de Charles Darwin celebra as ideias do naturalista inglês

Para celebrar o bicentenário de Charles Darwin (1809-1882) e os 150 anos da publicação da obra em que ele apresentou as bases científicas da teoria da evolução pela seleção natural, o livro Charles Darwin: em um futuro não tão distante mostra ao público o legado do naturalista inglês na contemporaneidade. Longe do estereótipo do cientista, a obra evoca um Darwin jovem e criativo, cujas ideias até hoje influenciam as mais diversas áreas da ciência.

A intenção dos organizadores do livro é fazer com que as ideias de Darwin alcancem um público cada vez maior, especialmente em um momento em que o ensino do criacionismo como alternativa ao evolucionismo tem ganhado força. Eles ressaltam que é justamente por essa “falta de cultura científica no mundo contemporâneo” que a celebração do nascimento de Darwin e da publicação de A origem das espécies é tão importante.

Não à toa, portanto, o mote da produção do livro foi dar continuidade ao trabalho iniciado com a exposição itinerante Darwin. Organizado durante o ano de 2008 pelo Instituto Sangari e pelo Museu de História Natural dos Estados Unidos, o evento contou com um ciclo de palestras sobre a vida e a obra do naturalista em cada cidade por onde passou.
Os ensaios presentes no livro são fruto das palestras proferidas no Rio de Janeiro por representantes de diversas áreas do conhecimento. A linguagem utilizada pelos autores é simples e, embora haja referências que o leitor menos especializado possa não compreender, um glossário presente ao final do livro consegue sanar dúvidas sobre termos mais técnicos ou alusões mais obscuras.

Abrangência temática
O primeiro capítulo, elaborado pelos próprios organizadores, é ideal para o leitor que não tem intimidade com a temática evolucionista, pois apresenta uma contextualização da importância e da atualidade da obra de Darwin, bem como um breve resumo de sua vida e de suas principais ideias. Nos demais capítulos, especialistas de diferentes áreas, desde a biologia evolutiva até a economia, abordam temas relacionados às ideias do naturalista.
Merecem destaque o texto da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que põe em cheque os mitos da superioridade do cérebro humano, e o do psicólogo César Ades, que prevê que “em um futuro não tão distante” a teoria evolutiva será determinante para a compreensão do comportamento humano.

Para quem se pergunta por que ainda se fala tanto de Darwin, o curador do Museu de História Natural dos Estados Unidos, Niles Eldredge, apresenta um texto introdutório em que busca explicar como, em meio a tantos gigantes intelectuais efêmeros, a figura de Darwin permanece sólida no imaginário contemporâneo ocidental. Eldredge afasta a imagem do senhor idoso e reflexivo que costumamos associar a Darwin e evidencia o aspecto jovem e criativo do cientista.

De maneira geral, não há lugar para críticas à vida ou à obra do naturalista inglês em Darwin: em um futuro não tão distante. Os 200 anos do nascimento do naturalista inglês são comemorados na obra com admiração e reflexão.

Charles Darwin: em um futuro não tão distante
Maria Isabel Landim e Cristiano Rangel Moreira (orgs.)
São Paulo, 2009, Instituto Sangari
168 páginas – R$ 35,00
Tel: (11) 3474-7500

Isabela Fraga
Ciência Hoje On-line
17/02/2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Prevenção é a melhor saída

Combate às larvas do Aedes aegypti antes da temporada chuvosa é a mais eficaz, diz estudo

Boa notícia para secretarias de saúde de todo o país: as medidas preventivas de controle do Aedes aegypti podem ser eficazes para combater a dengue. A ressalva é que elas devem começar bem antes da chegada da estação chuvosa, segundo concluiu um estudo realizado no Caribe. Se seguidas à risca, quem sabe essas medidas possam levar a um verão livre da dengue no Brasil... em 2010.

Técnico de saúde pública busca larvas de Aedes aegypti em Cuba. Pneus, pires e outros recipientes que acumulem água parada são locais em que o mosquito costuma colocar seus ovos (foto: WHO/TDR/Andy Crump).

A pesquisa conduzida pelo entomólogo Dave D. Chadee, da Universidade das Índias Ocidentais, na cidade de St. Augustine, em Trinidad & Tobago, concluiu que o controle de larvas realizado antes da temporada de chuvas é a maneira mais eficaz de evitar o crescimento da população do A. aegypti, transmissor da dengue. O combate à larva deve ser focalizado, com medidas tradicionais de segurança — como evitar acúmulo de água em garrafas, pneus e outros recipientes —, além do uso de inseticida.

Chadee analisou durante 25 semanas, entre março e agosto de 2003, as cidades de Curepe, com 15 mil habitantes, e St. Joseph, com 9 mil, ambas na ilha de Trinidad e com altos índices de infestação pelo mosquitoA. aegypti. No início do estudo, foram encontradas larvas do mosquito em aproximadamente 1,5% dos recipientes inspecionados nas duas cidades.

Um tratamento com o inseticida químico conhecido como temephos foi aplicado em áreas da cidade de Curepe, enquanto St. Joseph não recebeu o mesmo procedimento. Em abril, um mês antes do início da estação de chuvas no Caribe, a população do mosquito caiu quase 70% na cidade tratada, ao passo que na outra houve um aumento de mais de 65%.

Proliferação mais lenta
O estudo apontou ainda que a população de A. aegypti em Curepe demorou 11 semanas para retornar aos níveis anteriores ao tratamento, muito além das seis semanas em que normalmente isso acontece, no caso de campanhas tradicionais. Chadee acredita que a falta de um tratamento prévio contra as larvas poderia explicar as falhas em tentativas anteriores de combate ao mosquito vetor.

“Os dados sugerem que a eclosão dos ovos é de certa forma previsível, mas em geral os esforços de controle do vetor são executados em resposta a epidemias, muito tempo depois do período em que essas intervenções seriam eficazes”, diz Chadee no artigo em que descreve os resultados da pesquisa, publicado em dezembro na revista Acta Tropica.
De acordo com o entomólogo, a ação prévia ao início da estação chuvosa poderia ajudar a planejar e implementar operações de controle do mosquito. “Este estudo sugere a necessidade de estratégias para uma abordagem mais sistemática do controle vetor e da preparação para epidemias”, aponta.

Igor Waltz
Ciência Hoje On-line
18/02/2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Novidade promissora contra a Aids

Terapia gênica mostra-se segura e relativamente eficaz em testes com portadores do vírus HIV

Uma equipe internacional acaba de obter um importante avanço no combate à Aids. Ensaios clínicos mostraram que a aplicação de terapia gênica em portadores de HIV é segura e tem efeitos positivos – embora modestos – sobre os pacientes. Os resultados indicam que a técnica, depois de aperfeiçoada, poderá se tornar uma alternativa ao tratamento com drogas antirretrovirais, que precisam ser administradas por toda a vida e geram vários efeitos colaterais.

A terapia gênica empregada pelo grupo consiste em inserir um novo gene em células-tronco sanguíneas (que dão origem a todas as células imunes do sangue) retiradas dos próprios pacientes. A sequência genética em questão impede a replicação do HIV ao agir sobre duas proteínas essenciais para o vírus. As células modificadas são então reintroduzidas na corrente sanguínea dos pacientes.

O estudo, liderado por Ronald Mitsuyasu, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA), foi realizado com 74 adultos entre 18 e 45 anos infectados com HIV, sendo que 36 deles fizeram parte de um grupo de controle, que recebeu células-tronco do sangue sem o novo gene. Os pacientes foram acompanhados por cem semanas e tiveram que interromper por dois períodos o tratamento antirretroviral a que eram submetidos.

Os resultados, publicados esta semana na revista Nature Medicine, mostram que, quatro semanas após a introdução das células-tronco modificadas, o novo gene havia sido integrado ao DNA das células sanguíneas periféricas de 94% dos pacientes. Esse percentual caiu progressivamente até atingir 7% na centésima semana.

Cerca de 48 semanas após o início dos testes, os pacientes que receberam as células modificadas apresentaram carga viral menor. No entanto, a diferença em relação ao grupo de controle não foi estatisticamente significativa.

A imagem de microscopia eletronica colorizada por computador mostra o HIV atacando um linfócito cultivado em laboratório (foto: CDC / C. Goldsmith, P. Feorino, E. L. Palmer, W. R. McManus).

Por outro lado, ao longo das cem semanas de testes, houve aumento significativo no total de linfócitos T CD4+ (células do sistema imunológico atacadas pelo HIV) no grupo que recebeu o novo gene. “A diferença na contagem média desses linfócitos entre os dois grupos na 47ª e 48ª semanas foi de 40 células por mm 3 de sangue e, na 100ª semana, 50 células por mm 3 ”, conta Mitsuyasu à CH On-line. Isso representa uma diferença de cerca de 3% no percentual médio de células CD4+ no sangue.

“O estudo mostrou a aplicabilidade do método para reduzir a replicação do HIV e melhorar os níveis de células T CD4+ em pacientes infectados com HIV quando a terapia antirretroviral é interrompida”, destaca o pesquisador.

Método seguro
Os ensaios clínicos atestaram a segurança do emprego da técnica em humanos: não houve morte nem complicações clínicas (cardiovasculares, renais ou hepáticas) ou infecções severas entre os participantes que receberam as células modificadas. Os pesquisadores também não detectaram o desenvolvimento de resistência viral durante o tratamento.

“Mas é preciso ter cautela, já que os efeitos de longo prazo dos genes introduzidos nos pacientes ainda não foram determinados”, alerta Mitsuyasu. Até agora, passaram-se, no máximo, cinco anos desde o início do tratamento do primeiro paciente. Os pesquisadores pretendem acompanhar os participantes do grupo que recebeu o novo gene por pelo menos 15 anos.

Mitsuyasu ressalta que a terapia gênica ainda está longe de ser tão efetiva e completa quanto a terapia antirretroviral usada atualmente. Embora tenha muitos efeitos colaterais e esteja associado ao desenvolvimento de resistência pelo HIV, o tratamento atual é muito eficaz no controle da replicação do vírus e em retardar a progressão da Aids.

Segundo o pesquisador, é preciso aperfeiçoar as técnicas de inserção de genes, talvez usando mais de um gene anti-HIV para atingir vários locais dentro do vírus, e encontrar melhores meios de permitir que as células modificadas geneticamente resistam e se desenvolvam nos pacientes. “Se conseguirmos tornar esse tratamento mais efetivo no controle do HIV, ele poderá um dia ser capaz de substituir ou reduzir a necessidade do tratamento contínuo com drogas antirretrovirais”, avalia.

Thaís Fernandes

Ciência Hoje On-line
16/02/2009